Quantas vezes, após ser mãe, você não se olhou no espelho e não reconheceu o corpo que viu?

Quantas vezes você se culpou por não caber nas roupas de antes da gravidez?

Quanto tempo após seu parto você achou que já estava na hora de voltar a malhar e fechar a boca e ter seu corpo de volta? Você conseguiu?

Quantas vezes você já ouviu comentários enaltecendo aquela mãe que “nem parece que acabou de ter bebê”? Ou “nem parece que teve um / dois / três bebês”?

Quantas vezes você evitou se olhar? Ou evitou se mostrar pro seu parceiro? Ou não colocou biquíni na praia?

Para falar sobre este processo de transformação que a mulher vive na maternidade, a Beatriz Daou Verenhitach, médica mastologista, nos trouxe esta reflexão.

Muitas e muitas mulheres passam por isso, todos os dias. Elas sofrem, não se encontram e não se aceitam.

Mas muitas outras têm questionado essa busca inglória por um padrão raramente alcançável, e, principalmente, qual a necessidade desse padrão. A pergunta fundamental aqui é: por que as mulheres se sentem infelizes com seus corpos? E, o principal para este texto, por que as MÃES se sentem infelizes com seus corpos?

Não se trata aqui de fazer apologia da obesidade e do sedentarismo. De forma nenhuma. Como médica, isso seria cientificamente incorreto e profundamente antiético.  Trata-se de tentar entender porque as mudanças que nosso corpo sofre com o processo de gestação e parto nos incomodam tanto e por tanto tempo.

Ora, a maioria das mulheres convive por vários anos, antes de ser mãe, com seu corpo jovem e cheio de colágeno e  seu metabolismo funcionando a 100%. Muitas têm uma rotina que inclui atividade física várias vezes na semana. Refeições planejadas, sentadas à mesa. Durante a gestação, o corpo sofre a maior transformação fisiológica pela qual uma mulher adulta pode passar: o volume de sangue dobra; o volume uterino aumenta mil vezes; a vascularização de algumas áreas aumenta muito, como a vulva e as mamas; a pele escurece de modo irreversível ou apenas parcialmente reversível em alguns locais (adeus, mamilos rosados!); a musculatura do abdome se afasta, formam-se diástases e hérnias. Para algumas, o pós-parto se processa sem muita dificuldade, e logo ela está usando o mesmo jeans de novo. Mas para a maioria não é assim: o peso gruda, a celulite marca, impera a flacidez, as manchas na pele custam a sair.

Seriam essas marcas físicas assim tão aversivas? Justificam correr para a academia em pleno puerpério? Ou para o consultório do cirurgião plástico antes do primeiro aniversário da criança?

Afinal, elas resultam do processo absolutamente incrível e nobre de gerar uma criança, lhe dar a vida, lhe trazer ao mundo e dar nutrição, aconchego, colo, muitas horas de sono e quase todas as nossas horas de descanso.

A proposta aqui é refletir sobre essa relação cruel que a maioria das mulheres tem com seu corpo após a maternidade. Essa ideia não é minha. Na verdade, a pulga atrás da minha orelha foi plantada pelo belíssimo documentário Embrace, dirigido por Taryn Brumfitt, disponível no Netflix. Acredito que qualquer mulher que assista (mãe ou não) sai tocada pelo conteúdo e pelos depoimentos de mulheres que enfrentaram, de formas variadas, mudanças drásticas em seu esquema corporal.

Enquanto trabalho dentro de mim estas questões, de vez em quando abro aqui meu guarda-roupas e fico indecisa se é hora de descartar aquelas roupas pré-maternidade que não servem mais, ou se espero um dia indefinido em que elas voltem a ficar como antes. Se é que isso é possível. Ou, mais além, se é que isso é realmente necessário.

Beatriz Daou Verenhitach é mãe da Ana e da Sarah. Muito antes, já era médica mastologista, por isso mesmo acostumada a escutar, observar e acolher mulheres o tempo todo.

 

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